CVM Condena Fernando Passos por Manipulação de Mercado e Impõe Multa de R$ 20 Milhões
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão regulador do mercado de capitais brasileiro, condenou, por unanimidade, o ex-executivo da IRB Brasil Re, Fernando Passos, por manipulação de mercado e divulgação de informações falsas. A decisão impõe a Passos uma multa de R$ 20 milhões, a pena máxima prevista para a infração. O caso, que gerou grande repercussão e abalou a confiança no mercado, remonta ao ano de 2020 e teve desdobramentos significativos para a resseguradora e para a integridade do setor financeiro nacional.
Apesar da condenação de Passos, José Carlos Cardoso, que presidia a resseguradora na época dos fatos, foi absolvido das acusações. A decisão da CVM, proferida em sessão recente, ainda permite recurso ao Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional (CRSFN), o que significa que o processo pode ter novos capítulos.
O Escândalo da IRB Brasil Re em 2020: A Falsa Notícia da Berkshire Hathaway
O cerne da investigação da CVM reside nos eventos de fevereiro e março de 2020. Naquele período, Fernando Passos e José Carlos Cardoso informaram, durante uma reunião com analistas de mercado, que o renomado fundo de investimento Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, havia adquirido uma participação relevante na IRB Brasil Re. A notícia, de grande impacto, provocou uma imediata e expressiva valorização das ações da empresa, que registraram uma alta de 13,2%.
Contudo, a euforia do mercado durou pouco. Pouco tempo depois, o próprio fundo Berkshire Hathaway desmentiu publicamente a informação, negando qualquer aquisição de ações da resseguradora brasileira. A revelação da falsidade da informação desencadeou uma profunda crise de confiança na gestão da IRB, culminando nas renúncias de Fernando Passos e José Carlos Cardoso de seus respectivos cargos.
A Investigação da CVM e as Provas de Manipulação
As investigações subsequentes da CVM, detalhadas no relatório elaborado pelo diretor Daniel Maeda, apontaram que Fernando Passos foi o principal responsável pela disseminação das informações falsas e pela manipulação de planilhas. O objetivo, segundo o relatório, era enganar investidores e criar uma percepção artificialmente positiva sobre a situação da empresa. A motivação para tais ações fraudulentas estaria diretamente ligada a um programa de bônus para executivos, que premiava a valorização das ações da IRB. Este mecanismo de incentivo, portanto, teria impulsionado a conduta ilícita.
Além da divulgação de dados inverídicos, a CVM também constatou que, entre fevereiro e março de 2020, a IRB recomprou um volume de ações superior ao autorizado pelo conselho de administração. Essa prática, somada à falsa notícia sobre a Berkshire Hathaway, contribuiu para a valorização artificial dos papéis da empresa, distorcendo o real valor de mercado e prejudicando a transparência e a equidade do ambiente de investimentos.
Os impactos do escândalo foram severos para a IRB Brasil Re. A empresa foi obrigada a reduzir seu lucro líquido de 2019 em R$ 550 milhões e anunciou uma queda drástica de 92,2% no lucro do primeiro trimestre de 2020, evidenciando a extensão dos danos financeiros e reputacionais causados pela fraude.
A Absolvição de José Carlos Cardoso e a Responsabilidade Individual
A decisão da CVM de absolver José Carlos Cardoso foi fundamentada no entendimento de que ele não agiu com negligência. O diretor Daniel Maeda argumentou que Cardoso confiou nas informações transmitidas por Passos, que detinha a responsabilidade legal pela veracidade dos dados apresentados. Essa distinção de responsabilidades individuais é um ponto crucial na análise da CVM, que buscou diferenciar a atuação de cada executivo no esquema.
Padrão de Conduta: Processos nos EUA e o Caso Mubadala/Caixa
A condenação de Fernando Passos pela CVM no Brasil não é o único revés legal que o ex-executivo enfrenta. Ele também é alvo de um processo nos Estados Unidos por fraude financeira, o que indica um padrão de conduta questionável em diferentes jurisdições e contextos de mercado.
Mais recentemente, em agosto, Passos foi novamente envolvido em uma polêmica ao tentar alavancar negócios utilizando o nome de outro gigantesco fundo de investimento. Em uma negociação entre sua empresa, a Cactvs, e a Caixa Econômica Federal, Passos teria citado uma sociedade com o fundo Mubadala, um dos mais ricos do planeta, sugerindo que o Mubadala atuaria como sócio e fiador da Cactvs em um contrato de microcrédito com o banco público. Assim como ocorreu com a Berkshire Hathaway em 2020, o Mubadala desmentiu a informação, negando qualquer parceria com Passos ou sua empresa.
A Cactvs de Fernando Passos havia sido escolhida pela Caixa Econômica Federal para gerenciar uma carteira de microcrédito, o que torna a tentativa de uso indevido do nome do Mubadala ainda mais grave, dado o envolvimento de uma instituição financeira pública e a sensibilidade do setor de microcrédito.
Implicações para o Mercado de Capitais
A condenação de Fernando Passos pela CVM reforça a atuação do órgão regulador na fiscalização e punição de condutas que atentam contra a integridade do mercado de capitais brasileiro. A imposição da multa máxima de R$ 20 milhões serve como um forte alerta para executivos e empresas sobre as consequências de práticas fraudulentas, especialmente aquelas que envolvem a disseminação de informações falsas e a manipulação de preços de ativos.
A decisão da CVM é um passo importante para restaurar a confiança dos investidores e garantir que o mercado opere de forma transparente e justa, protegendo os participantes de práticas desleais e contribuindo para a solidez e o desenvolvimento do ambiente de investimentos no Brasil.
Informações do Bastidor e CVM

