Fictor e o Sumiço de R$ 3 Bilhões: Investigação Revela Fluxo para Offshores e Empresas Satélite
Mais de 13 mil investidores que apostaram em Sociedades em Conta de Participação (SCPs) do Grupo Fictor, sob a promessa de rendimentos mensais fixos entre 2% e 3%, enfrentam um cenário de incerteza. A recuperação do capital, estimado em cerca de R$ 3 bilhões, esbarra em fortes indícios de desvio de finalidade dos aportes, com parte relevante do dinheiro supostamente drenada para estruturas periféricas e offshores que não foram incluídas no processo de recuperação judicial (RJ) da companhia. A situação, que se arrasta desde o final de 2025, tem gerado apreensão e mobilizado o Poder Judiciário em busca de respostas e responsabilizações.
Documentos contábeis da Fictor Holding, que declarou menos de R$ 90 mil em caixa antes de protocolar o pedido de recuperação judicial, apontam que pelo menos R$ 1,3 bilhão foi direcionado a offshores, exchanges e empresas satélite. Essa rede de transações de baixa rastreabilidade tem impedido que os ativos sejam alcançados legalmente pelos investidores. Nenhuma das empresas beneficiadas por esses empréstimos e transações de crédito milionárias, não especificadas nos autos, consta na lista das 43 companhias incluídas no processo de RJ da Fictor até meados de março de 2026.
O Labirinto Financeiro e as Offshores
A complexidade da estrutura financeira da Fictor começou a ser desvendada por investigações e pela perícia judicial. O juiz Adler Batista Oliveira Nobre, da 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais, em decisão de 3 de março de 2026, estendeu a recuperação a 43 empresas e concedeu um prazo de 15 dias para que as novas participantes apresentassem documentação. A Justiça mantém no radar a possibilidade de incluir novas empresas no processo, diante de provas concretas de envolvimento com o esquema.
Entre as entidades sob escrutínio, destaca-se a offshore Titan Capital, holding sediada nas Ilhas Cayman e ligada a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Nos registros contábeis da Fictor, a Titan aparece camuflada como Sefer Investimentos, representante legal do único cotista do FIDC Kripsky e credora de R$ 430 milhões na lista apresentada pela Fictor à Justiça. Contudo, a Sefer nega veementemente a condição de credora do Grupo Fictor, conforme refutado judicialmente, afirmando atuar exclusivamente na gestão e administração de recursos de clientes terceiros.
Em outubro de 2025, a Fictor celebrou um contrato de R$ 500 milhões com a Titan Capital para a aquisição de direitos creditórios de R$ 1,6 bilhão, correspondente a mais de um terço do patrimônio do Kripsky na época. O período da celebração desse contrato coincide com a primeira leva de pedidos de resgates nas SCPs da Fictor Invest. Embora a Fictor tenha alegado no processo de RJ que a tentativa frustrada de comprar o Banco Master, em novembro, teria desencadeado a onda de resgates, os documentos indicam que os pedidos de resgate já ocorriam em outubro de 2025, antes mesmo das notícias sobre a oferta pelo banco. Em 15 de dezembro, surgiram os primeiros relatos de calote, e advogados já cobravam pagamentos atrasados da Fictor Invest até o fim do ano.
Especialistas, sob condição de anonimato, avaliam que o caso Fictor pode ser ainda mais grave para os 13 mil credores pessoas físicas do que o do Banco Master, devido à ausência da proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para os investidores de SCPs. A dependência exclusiva do Poder Judiciário, que inicialmente não havia bloqueado os bens dos sócios, gerou uma sensação de desamparo entre os investidores.
O Padrão de Transações Atípicas e Empresas Satélite
A falta de liquidez da Fictor, que culminou no pedido de recuperação judicial, parece estar intrinsecamente ligada a um padrão de transações financeiras milionárias a terceiros e aos sinais de desmantelamento de subsidiárias já deficitárias, conforme apontado pela perícia judicial em fevereiro de 2026. A contabilidade da holding revela que, dos quase R$ 3 bilhões captados, mais de R$ 900 milhões foram direcionados a CNPJs satélite.
A Enor Pay, uma exchange de tokenização de ativos, surge nesse circuito em uma posição peculiar, sendo simultaneamente credora e devedora de operações que somam mais de R$ 210 milhões. A Fictor Holding reconhece uma dívida de R$ 180 milhões da Enor Pay referente a gastos com cartão corporativo, mas o mesmo documento aponta uma dívida inversa de R$ 30 milhões da Fictor Holding com a Enor Pay por empréstimo de mútuo.
O laudo pericial da RJ da Fictor ainda atestou a existência de um “caixa único” e de um “fluxo financeiro atípico”, posteriormente reconhecido pela Justiça. A holding recebia todos os recursos captados pelas subsidiárias e os transacionava para dentro e fora do grupo, formalizando a leitura jurídica de funcionamento do grupo com “caixa único”.
Entre as empresas satélite, a Limex, companhia de comércio exterior ligada a Mauricio Mendes Dutra, membro do conselho de administração da Fictor Alimentos até dezembro de 2025, recebeu mais de R$ 428 milhões da Fictor Holding em operações de crédito. Outra é a Aqwa Capital, holding domiciliada em Delaware (EUA), que aparece com uma dívida de R$ 35,5 milhões com a Fictor Holding. A Aqwa Capital e a Fictor Holding são sócias na Fictor Alimentos e lideraram a aquisição da Atom Participações, visando a listagem da Fictor Alimentos na B3 em dezembro de 2024. Elias de Oliveira, representante da Aqwa Capital no Brasil, também figura como credor da Fictor Holding por reembolso de despesas.
A empresa de tecnologia Est3lar, que esteve sob o controle da Fictor Lab de janeiro a dezembro de 2025, recebeu R$ 260 milhões do limite do cartão corporativo da Fictor Holding, período em que seu capital social cresceu exponencialmente de R$ 1 mil para R$ 2 milhões.
O Trio Central e a Teia de Conexões
Indícios de transações da holding para companhias ligadas a Rafael Paixão e Luiz Phillippe Rubini, que dividiram com Góis o comando da Fictor e participaram da tentativa de compra do Banco Master, também foram revelados. Rafael Paixão, que constituiu a GPP Participações em julho de 2025 para a operação do Banco Master, teria recebido R$ 20 milhões da Fictor sem contrapartida contábil identificada, conforme análise forense apresentada pelo advogado Felipe Gosuen da Silveira, que representa mais de 200 credores. Paixão está ligado à Vem Benefícios (antiga Vem Card), empresa de crédito consignado, que teve a Fictor Consignado (subsidiária da Fictor) como sócia e injetou milhões em seu capital social. A FCT Partners, CNPJ que liga o trio central da Fictor, é apontada como um elo na blindagem de empresas que hoje operam sob o comando exclusivo de Paixão, compartilhando o mesmo endereço em São Paulo, mas não incluídas no processo de RJ.
Luiz Phillippe Rubini fundou a empresa que se tornaria a Fictor Invest, principal veículo de captação do grupo. A companhia nasceu como One Off Investments com a integralização de quase R$ 33 milhões em cártulas do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), títulos que, segundo o Tesouro Nacional, não possuem valor comercial ou jurídico. Rubini nega laços recentes com a Fictor, afirmando que sua sociedade foi encerrada em dezembro de 2024 e que parte dos R$ 38 milhões que a Fictor Holding reconhece dever a ele foi quitada, enquanto o restante consta entre os créditos habilitados na RJ. No entanto, fontes do mercado o descrevem como um dos principais operadores da Fictor até o final de 2025.
Góis, apontado como o “cabeça” da Fictor, declarou à Receita Federal uma dívida de mais de R$ 157,5 milhões diretamente à Fictor Holding em 2024, um aumento de R$ 120 milhões em relação ao ano anterior. Ele adquiriu de Rubini 32 milhões de cotas da Fictor Invest por R$ 161,6 milhões, um valor que levanta questionamentos, dado que a Fictor Invest era uma intermediadora com ativos mínimos e por onde os quase R$ 2,8 bilhões levantados no mercado foram drenados para a holding, operada pelo próprio Góis.
A Complexidade da Estrutura e o Vazio das Operações
O Grupo Fictor é uma estrutura com pelo menos 110 CNPJs, próprios e em sociedades, arquitetada para atuar no mercado de capitais brasileiro. Esse emaranhado de pessoas jurídicas, com nomes semelhantes e constantes mudanças nas estruturas societárias, materializa a confusão patrimonial que se reflete na contabilidade interna. Quase todos os recursos captados pelas subsidiárias eram repassados para a holding, mas a esse corpo da companhia, faltava massa.
O laudo pericial da RJ aponta um possível esvaziamento ou inexistência de várias operações que a Fictor alegou ter nos contratos de SCPs. Uma visita à Fictor Agro, em Goiás, constatou que a subsidiária consistia em uma sala vazia com atividades encerradas há meses. No Amazonas, empresas do grupo não tinham sequer identificação visual. Enquanto muitos desses braços serviam exclusivamente à captação de recursos, a Fictor Alimentos era apresentada como a principal fonte de receitas e a base para a recuperação do grupo. No entanto, a operação agroindustrial era estruturalmente deficitária e só se sustentou graças a uma injeção de R$ 70 milhões em setembro de 2025, encerrando o último período reportado com prejuízo de R$ 2,29 milhões.
Diante dos indícios de fraude, risco de dilapidação e confusão patrimonial, a juíza Adriana Sachsida Garcia, em 5 de março de 2026, determinou o bloqueio de bens de pessoas físicas ligadas ao grupo, um passo crucial para a proteção dos credores. O Grupo Fictor, por meio de nota, informou que todos os esclarecimentos estão sendo prestados exclusivamente no âmbito dos procedimentos judiciais e administrativos em curso, com total transparência perante as autoridades competentes e credores, e que não comentará questionamentos específicos fora dos autos. Luiz Phillippe Rubini e a Sefer Investimentos também se manifestaram, reiterando suas posições já apresentadas judicialmente e negando as acusações.
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